Com Belo Monte, violência sexual contra criança e adolescente cresce 138%

Publicado em 11 de outubro de 2011

Na esteira da endemia que explodiu em Rondônia com as obras das usinas de Jirau e Santo Antonio, Belo Monte também  está se tornando um vetor de crimes de violência sexual contra a criança e o adolescente. Segundo dados do Conselho Tutelar de Altamira, somente no primeiro trimestre deste ano já foram registrados 32 casos, o que significa uma projeção para o final do ano de mais de 100 ocorrências – em 2009, foram denunciados 28 casos e em 2010, 42.

“Isso são apenas os casos registrados. Sabemos que há muitos outros que acabam não sendo denunciados; e que, via de regra, as projeções são sempre menores do que as estatísticas mostram. De toda forma, isso já duplica a demanda e a necessidade de atendimento”, explica a  conselheira Lucenilda Lima. Segundo a conselheira, Altamira não tem estrutura para sustentar “um empreendimento monstruoso como esse. O conselho tutelar é a porta de entrada de todos os problemas que chegam no município. Somos 5  conselheiros pra 106 mil habitantes no maior município do mundo. E um carro velho que vive mais quebrado do que funcionando”, desabafa.

Lucenilda explica que em 2009 o Conselho realizou 2440 atendimentos.  Em 2010, o numero subiu para 2518 casos. Já no primeiro trimestre de 2011,  890 ocorrências foram registradas, jogando para 3200 o número de atendimentos até o final do ano – crescimento de 27%. “As empresas e governos envolvidos nesta obra, enfiada goela abaixo, são responsáveis. Tratam a cidade na base do descaso”, conclui.

De acordo com o professor da UFPA e especialista em direitos humanos, Assis Oliveira, o ano de 2009 foi marcado pelo início do processo de implementação de Belo Monte. “Já se notou um crescimento [da violência contra crianças e adolescentes] a partir daí – e agora com as obras, é tão acelerado que as instituições não tem capacidade para suportar a demanda”, explica.

Modelo
Segundo o professor, não é somente em Belo Monte que ocorrem casos de violência sexual, aumento de vício por drogas,  e aumentos da violência das próprias crianças e adolescentes. “Isso se dá em locais onde ocorrem grandes projetos como este. No Rio Madeira, dados da Plataforma Dhesca demonstraram aumento de 208% nos casos de estupro desde o início da obra. Esse aumento não se dá por uma questão local. Está ligado a um modelo de desenvolvimento, que tem por trás uma série de violações de direitos”, diz Assis.

Ele sustenta que o aumento da migração é uma das hipóteses que explicariam este tipo de contexto. “A maioria são homens, que vem trabalhar em ritmo intenso, a semana toda nos canteiros de obras e tem o final de semana para se divertir. Por diversão, entenda-se bebidas e exploração sexual – coisas que envolvem a criança e o adolescente”.

Outra questão séria são as famílias que estão sendo desalojadas dos seus locais de vivência tradicional, das  periferias, acrescenta Assis. O empobrecimento dessas famílias, o aumento do custo de vida – de alimentos a aluguéis -, tudo isto tem levado à precarização e marginalização das famílias. “Muitas vezes, a solução que se acha é o ingresso das crianças no trabalho infantil – e um deles é a prostituição”.

Por fim, Assis aponta que não houve um processo democratizante, onde as crianças e adolescentes pudessem se manifestar e marcar opinião sobre Belo Monte.  “As crianças tem opinião, elas vivenciam essa ação – e devem ser levadas em conta”, avalia.

Para os movimentos sociais de Altamira, a principal preocupação são as condições e o ambiente oferecido às crianças em longo prazo. “Como será o futuro delas na nossa região? Está provado que o governo não está garantindo as políticas públicas necessárias para segurar a onda de migrações e o aumento populacional. As creches, centros de internação, escolas e outros aparelhos que temos já não dão conta nem da nossa demanda. E obviamente não darão conta dos conflitos, sobretudo nos próximos cinco anos, quando a população tenderá a explodir, caso Belo Monte ainda não tenha sido barrada até lá”, afirma a coordenadora do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, Antonia Melo.  “E estamos falando de direitos que deveriam ter sido garantidos há muito tempo nessa região, e só agora os governos falam desses direitos. Porque  você tem um grande projeto que desperta interesse, leis que não funcionam e uma falsa fiscalização do que deveria se estar fazendo para que a obra pudesse estar acontecendo”, conclui.

 

Comentários (1)

  • ApenasEu |

    19/10/2011

    Lamentável ler e ouvir um desabafo de um professor,fica aqui uma pergunta E um desabafo que concerteza ninguém saberá me responder,…PORQUE ESSA PERSEGUIÇÃO PELOS NOSSOS IRMÃOS INDÍGENAS, SENDO QUE ELES SÃO OS ANJOS PROTETORES DA "MÃE NATUREZA" ELES QUEREM APENAS VIVER EM PAZ,COM SUAS FAMILIAS , TRADIÇÕES, E CUIDAR DA TERRA QUE É DELES POR DIREITO, ONDE ESTÁ O DIREITO DA CRIANÇA …É FÁCIL e BONITO FAZER CAMPANHAS NACIONAIS NA TV PARA ARRECADAR DINHEIRO PARA AJUDAR NOSSAS CRIANÇAS A ESTUDAR,FAZER CURSOS PROFISSIONALIZANTES ,NA MINHA IGNORÂNCIA EU ENTENDO QUE QUANDO FALAMOS DE DIREITOS DA CRIANÇA SE ESTENDA A TODAS AS CRIANÇAS DO TERRITÓRIO NACIONAL,SEJAM ELAS "BRANCAS…NEGRAS…E INDÍGENAS…O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM OS ADOLESCENTES E CRIANÇAS INDÍGENAS É UM ATO DE COVARDIA, ELAS ESTÃO SENDO VÍTIMAS DE ESTUPROS DESSES TRABALHADORES QUE SE DIZEM "TRABALHADORES DO PROGRESSO",AQUI EU PERGUNTO? ONDE ESTÁ O DIREITO DESSAS CRIANÇAS QUE POR LEI SÃO PROTEGIDAS PELO ESTATUTO DA CRIANÇA… É MAIS FÁCIL AS NOSSAS AUTORIDADES "FECHAR OS OLHOS E OUVIDOS", MEDIANTE DO PEDIDO DE SOCORRO DE UM POVO, MASSACRADO PELA GANÂNCIA E PELA FALTA DE RESPEITO PELA VIDA HUMANA E RESPEITO AOS ADOLESCENTES E CRIANÇAS…QUE NAÇÃO É ESSA QUE PRATICA ATOS DE VIOLÊNCIA PARA COM AS CRIANÇAS E OS CULPADOS NÃO RECEBEM UMA PUNIÇÃO E ESTÃO EM LIBERDADE???

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