Ensecadeira se estende de ponta a ponta em canal do rio Xingu, inundando trechos florestados de ilha e terra firme

Publicado em 30 de janeiro de 2012

Nas margens do Arroz Cru, região onde se concentrava o maior número de ribeirinhos, pescadores, seringueiros e agricultores da Volta Grande, no Rio Xingu, casas habitadas e abandonadas se misturam ao cenário de ficção científica da construção da primeira barragem de Belo Monte. Em algumas das casas vazias, é possível ver vacas e bois abandonados e cachorros sem o que comer. Nas residências ribeirinhas, onde domingo era dia de reunião nas casas mais espaçosas, silêncio.

A primeira das três primeiras ensecadeiras que servirão para a construção da barragem da Usina Hidrelétrica Belo Monte já fechou o rio Xingu. Situada no chamado canal  do Arroz Cru, o canteiro de obras foi alvo de protestos no mês de janeiro.

 

No entorno da Ilha do Pimental, localizada na margem oposta do canal, diversas placas boiando na água advertem às embarcações que já não é mais permitido transitar por lá. E de fato, não há saída: de ponta a ponta, o canal, da margem do Arroz Cru até a ilha, já foi barrada pela primeira ensecadeira da usina.

O barramento já alterou o nível do rio no canal. Acima da ensecadeira, a água está cerca de três metros mais alta do que à jusante, dizem os pescadores. “Tá vendo aquele coqueiro? A água nunca chegou nessa altura”, comentou um pescador. “O rio já está bem cheio e ainda é janeiro. E aqui perto do aterro [ensecadeira] tá muito alto. Será que é por isso que lá em Altamira tá cheio daquele jeito?”, questionam entre si. De fato, a “enchente”, como é chamado o período das cheias e do inverno na cidade, está adiantada. “É porque é ano bissexto”, explicam. 

“E a água represada tá correndo pra lá, pras ilhas, pra terra”, diz o pescador. De fato, a barragem provisória ja está inundando trechos florestados de ilha e terra firme. “E como eles vão fazer depois? Tirar a água do rio pra derrubar a mata?”, indagam os pescadores.

De acordo com os pescadores, se o trecho do rio em questão ficar permanentemente cheio, é o início do fim da vida na Volta Grande do Xingu. “As praias daqui já estão debaixo d’água e nós nunca mais vamos ver. Os peixes não vão comer esse lodo cheio de barro que está sedimentando no fundo do rio. A gente disse pra Norte Energia que os peixes vão morrer e que não vamos poder pescar, e que depois só ia sobrar o Tucunaré, porque ele é um peixe predador. Aí o engenheiro me disse que isso era uma coisa boa, e perguntou se a gente não achava isso bom”, conta um pescador.

A supressão da vegetação da Ilha do Pimental também avança. De acordo com moradores da região, o desmatamento já tem cerca de oito quilômetros de comprimento.

 

Comentários (7)

  • MÁRIO CAJUHY |

    30/01/2012

    O GOVERNO PROMOVE CRIMES AMBIENTAIS . GOSTARIA DE SABER O QUE O – SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA – TEM A DIZER E OU A FAZER . . . ??
    ACREDITO QUE NÃO IRÁ MEXER UM DEDO, POIS NÃO ESTÃO LÁ PARA JULGAR O GOVERNO , MAS SIM PARA EVITAR QUE MEXAM COM O PATRÃO DELES . RAÇA DE VAGABUNDOS .

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  • Fábio Pinheiro |

    30/01/2012

    sem comentários. infinita tristeza

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  • Pedro Henrique |

    31/01/2012

    O Xingu Vivo, pasmem, imagina que uma hidrelétrica pode ser construída sem ensecadeira… É o tipo de reportagem que não traz novidades: o alagamento de áreas próximas ao Xingu está previsto desde os anos 80, quando o projeto ainda tinha outro nome; os moradores da região terão que deixar suas casas, o que também era esperado; e a supressão vegetal também precisa ser feita, pois a barragem não pode ser erguida sobre as árvores. Em vez de ficar martelando o óbvio, o Xingu Vivo deveria aceitar Belo Monte como importante ferramenta para o desenvolvimento do país e, isto sim, exigir que as obras transcorram sob rígida fiscalização. O resto, é brincadeitinha de ONGs mais preocupadas em ganhar fama internacional e ter direito a "mesada" de entidades internacionais, que pouco se preocupam com os crimes ambientais que ocorrem diariamente em seus países de origem.

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  • Iremar |

    01/02/2012

    Eu sou de Porto Velho e me assusto com o que escreveu o Pedro Henrique…
    Como pode querer passividade de quem está sofrendo na pele as violências do tal desenvolvimento, que expulsa, que oprime… o óbvio parece ser o pensamento mesquinho dele… é tão fraco em argumentos que atribui a responsabilidade do contraditório a ong´s internacionais, assim como diziam pra nós na luta contra as hidrelétricas no rio Madeira e quando acaba os internacionais que lucram realmente são: Suez Energia, Andrichw e tantas outras, além da Odebrechet, Furnas, Camargo Correa e etc… agora mesada mesmo quem recebe e recebeu são os políticos cujas campanhas foram financiadas por estas empresas, tendo por exemplo na última campanha presidencial, tanto Serra quanto Dilma tiveram como maiores financiadores de suas campanhas Odebrechet e Camargo Correa, então pense antes de falar besteira, antes de atirar a pedra em pessoas e organizações que defendem o direito coletivo e não das empresas…

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    • IVONE |

      08/02/2012

      CONCORDO EU NAO QUERO USINA E NOS BRASILEIROS NAO QUEREMOS….. os indígenas tem todo o direito, as terras são deles e estão sendo roubados.
      onde está a conscientização ambiental, promessa em campanhas políticas!
      o que adianta essa hidrolétrica beneficiar uns e detonar outros e acabar com recursos naturais, sem falar que os indios são os DONOS, ELES NAO QUEREM USINAS, ELES QUEREM SOBREVIVER. JA NAO BASTA QUE JA TOMARAM O BRASIL DELES, SOBROU APENAS UMA MIGALHA DE TERRA . ISSO É DESUMANNO!

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    • fran cimar - pacajá |

      27/04/2012

      pompom
      sabemos que o grande capital impera em nossa sociedade – expressivo nesse empreendimento que está lastrando o embiente vivo da amazonia. sabemos tambem, que essa mega obra irá beneficiar somente e apenas os mega empresários detentores do poder das grandes transnacionais que virão ao Brasil. Nosso pais inegavelmente está passando por um crescimento econômico supriendente. mas para isso vai custar muito a nossa natureza – belo monte ( que é umas das seis que será construida no rio xingu e iriri, giral e santo antonio. energia hidrelétrica é limpa. mas causa danos socias e ambientais irreverciveis. isso é só o começo.

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  • jackson diniz |

    17/02/2012

    queremos saber dos governos onde anda a aprovação deste leilão consocio de construir belo monte será que esta certo? foi aprovado com a presença em audiência de no minimo 50 cidadão brasileiro como fala nossa lei ambiental.
    como ficara a situação dos pescadores sem os peixes ornamentais ao qual muitos dependem desta atividade.
    esse projeto de criar peixe ornamental e furada como podemos criar peixes ornamentais pra vende pra outros países se lá eles já criam isso e inviável. e melhor compra peixes criado la na asia e Europa do que compra do brasil pagando frete super caro…

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