TRF-1 invalida licença de Belo Monte e desembargador fala em ditadura do governo

Relator Souza Prudente afirma que artigos da Constituição Federal e Convenção 169 não foram cumpridos
Publicado em 14 de agosto de 2012

Por Renato Santana, do CIMI – Os desembargadores da 5ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), com sede em Brasília, invalidaram, por unanimidade, a licença prévia e de instalação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. As obras, portanto, devem ser suspensas.

A notificação deverá chegar para o consórcio Norte Energia, construtor da usina, nas próximas horas e para cada dia de não cumprimento da decisão do TRF-1, a multa estipulada é de R$ 500 mil. O consórcio poderá recorrer da sentença no Supremo Tribunal Federal (STF).

Conforme o relator, desembargador Antônio de Souza Prudente, a determinação da consulta prévia e informada – conforme manda a Constituição Federal e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) – não foi realizada pelo Congresso Nacional.

A consulta deve ser prévia, não póstuma. Não podemos aceitar essa ditadura que vemos no Brasil. Faz a obra e pergunta depois. As comunidades indígenas precisam ser ouvidas e respeitadas”, diz o desembargador Souza Prudente durante entrevista coletiva nas dependências do TRF-1.

Sobre a alegação do governo federal de que as oitivas foram feitas, Souza Prudente afirma que a prerrogativa das consultas é do Congresso Nacional, que deveria tê-las realizado antes de votar o decreto legislativo 788, que autorizou o Executivo a construir Belo Monte.

Não aconteceu isso. A consulta não é mera formalidade: a opinião dos indígenas deveria ser levada em consideração na decisão dos parlamentares. O Congresso só pode autorizar a obra se os indígenas quiserem”, destaca o desembargador, citando o jurista Dalmo Dallari, os artigos da Constituição e da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Souza Prudente acrescenta que o Congresso não pode delegar a terceiros a consulta. Desse modo, as realizadas pelo Ibama, Funai e demais órgãos não são válidas. De acordo com o desembargador, tais consultas, inclusive, se limitaram a comunicar a realização do empreendimento. O desembargador diz não ver isenção em consultas feitas por órgãos do governo federal, principal interessado pela obra.

Existem muitas outras Ações Civis Públicas [contra o processo de construção de Belo Monte] e isso mostra o quanto de erros existe na execução dessa obra. Não podemos aceitar que os indígenas não sejam escutados. Essa ditadura é inadmissível”, frisa o desembargador.

Impactos
Souza Prudente justificou sua posição citando recente pronunciamento do presidente do STF, Carlos Ayres Britto, durante votação da nulidade de títulos dos ocupantes não-índios da Terra Indígena Pataxó Hã-Hã-Hãe, no sul da Bahia: “A terra para o índio é mística, não é uma propriedade que se vende ou troca”.

Com a colocação, o desembargador retornou à Constituição e à Convenção 169 para dizer que ambas defendem essa forma de entender a terra presente no “meio ambiente cultural” dos povos indígenas. “Se este meio ambiente cultural será impactado, os indígenas devem ser ouvidos”, destaca Souza Prudente, lembrando que o ministro do STF Celso de Melo já tinha levado para a Suprema Corte do país a defesa constitucional do meio ambiente cultural.

O governo federal não foi poupado na fala do relator. Para ele, as terras indígenas não foram demarcadas e por isso não é possível saber o tamanho do impacto que a UHE Belo Monte terá. Além disso, qualquer alteração no dito meio ambiente cultural dos indígenas deve ser levada em consideração.

Souza Prudente parafraseou o poeta Vinícius de Morais ao responder perguntas relativas às formas de recorrer que a defesa do consórcio – a Advocacia Geral da União (AGU) – poderá optar: “Espero que os ministros do STF, caso vá para lá, validem a decisão do TRF-1, mas que a justiça seja eterna enquanto dure”.

Comentários (3)

  • Edu Castilho |

    15/08/2012

    Souza Prudente que ótimo trabalho o senhor está realizando, seu gesto tem a força de milhoes de mãos brasileiras, de brasileiros que comemoram a noticia da suspensão da construção da usina, sobretudo os indigenas, que são muito mais que brasileiros

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  • José Adão |

    15/08/2012

    Antes da Rio 92, Pena Branca e Xavantinho davam os seus alertas em 1991, o MNU gritava: Pela Democracia Racial em 1978, um grupo da UFBA realizou uma denominada ETSEDRON expondo cipós retorcidos e uma ossada de cabeça de vaca denunciando a seca nordestina, Patativa do Assaré,segundo Ivan Angelo, compôs as 14 estrófes do poema Triste Partida no sól a pino elevando ao céu a enxada e descendo firme na terra seca e Luis Gonzaga umideceu a dor e cantou suave para que a denuncia da brutalidade e maldade dos poderosos não ferisse os ouvdos das pessoas da cidade.
    Os denomidados cidadãos de bem e investidores do "progresso" estão reproduzindo novas Canudos na Amazônia e logo logo as florestas vão virar sertão, mas isto são outros quinhentos, o que importa agora é a vontade dos investidores DE AÇÕES DE ENERGIAS nas Bolsas de Valores aliados aos donos do norte/nordeste brasileiro que vêem os indígenas e quilombolas como pedras nos caminhos dos interesses coloniais/republicanos. Ouçam este antigo alerta: http://www.youtube.com/watch?v=BgIDZRHVxN4

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  • Girolamo Treccani |

    20/08/2012

    Na esperança que o governo não derrube nas instâncias superiores da Justiça, o Xingu continuará a viver
    Girolamo Treccani

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