Um prefeito, Belo Sun e as veias arrebentadas da Volta Grande do Xingu

Publicado em 30 de novembro de 2017


O que pensar de um empreendimento e de um prefeito municipal que têm medo de que se debatam aspectos técnicos de um projeto que quer ser a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil? O que pensar dessa gente que, para impedir uma mera troca de informações, apela para truculência contra pesquisadores, autoridades públicas e pessoas que se sentem atingidas em seus direitos?

Nos últimos dias, o prefeito de Senador José Porfírio, Dirceu Biancardi (PSDB), liderou uma violenta ofensiva contra a difusão de informações sobre Belo Sun, projeto que ele declara ser benéfico a seus interesses.

No dia 23 de novembro, quando deveria ocorrer uma audiência pública na Vila da Ressaca, na Volta Grande do Xingu, localidade de onde por mais de 70 anos garimpeiros artesanais tiram o sustento de suas famílias e que agora foi tomada por Belo Sun, Biancardi incitou parte da população contra organizações e movimentos sociais, padres da Prelazia do Xingu e contra os defensores públicos estadual – Dra. Andreia Barreto – e federal – Dr. Ben Hur Daniel Cunha – além da jornalista Verena Glass, que se prontificaram a debater dados legais e técnicos do projeto mineiro com o povo da Volta Grande.

As vaias e ofensas – que incluíram um racismo rasteiro contra os povos indígenas juruna e arara presentes -, impediram a ocorrência da audiência. Possivelmente apavorado com o debate, o prefeito usou o espaço que tomou à força como palanque, defendendo feitos e obras que não passam de cumprimento de condicionantes de Belo Monte. Tomou o microfone para vociferar contra organizações da sociedade civil, como o Xingu Vivo, mas foi incapaz de apresentar ou contrapor os dados legais e técnicos expostos. Seus seguidores e parentes ainda apelaram para agressão física contra moradores da Vila e pesquisadores da UFPA presentes.

A mesma truculência se repetiu no dia 29, na UFPA em Belém, onde seria realizada a segunda rodada de debates do seminário “As Veias Abertas da Volta Grande do Xingu” (a primeira ocorreu no dia 28 na UEPA, e transcorreu tranquila e profícua, com debates qualificados entre defensores e críticos do projeto mineiro).

Biancardi custeou a vinda de cerca de 40 pessoas da Volta Grande a Belém, para repetir o procedimento adotado no dia 23. Em um evento promovido por três instituições autônomas – UFPA, Movimento Xingu Vivo e Fundação Rosa Luxemburgo -, que têm a prerrogativa de organizar quaisquer eventos que acharem pertinentes, e para os quais convidam quem lhes aprouver, o prefeito e seu grupo, de forma grosseira, desajeitada, mal educada, covarde e violenta novamente tomaram o espaço onde seria realizado o evento acadêmico e causou seu cancelamento, tendo submetido a professora Dra. Rosa Acevedo, coordenadora do debate, a cárcere privado e violência física, como denunciado à Policia Federal e ao MPF.

O que nos preocupa nesses episódios não é a falta de hombridade, decência, decoro, coragem e bom senso. Nos preocupa que sua histeria interesseira e seus interesses econômicos possam impedir que informações importantes sejam debatidas com a população que será direta e indiretamente impactada por Belo Sun.

O Movimento Xingu Vivo para Sempre tem como missão defender o rio, seu povo, os direitos humanos, os direitos da natureza, a vida. Nem precisamos elencar os reconhecimentos e a solidariedade  nacionais e internacionais frutos deste trabalho. Não nos preocupam difamações ou bravatas, mas nos preocupa que projetos e indivíduos com muito dinheiro corrompam parte das vítimas e aniquilem a outra parte.

Sobre os fatos ocorridos, deixamos que o sistema judiciário, o MPF, o MPE, a DPE, a DPU, a OAB, a SDDH (que nos representa) e a polícia se encarreguem da justiça. Instamos estes órgão a providenciar segurança para todos aqueles que foram ameaçados, porque, como visto, a violência é o argumento dos covardes e incapazes.

Belo Sun encontra-se paralisada na Justiça Federal, e assim deve continuar, pelo bem de todos os ameaçados pela empresa, poder local, e pelo projeto em si, mergulhado num lamaçal de irregularidades.

O Xingu Vivo sempre esteve e sempre estará com aqueles que tem seus direitos humanos ameaçados. Continuaremos lutando pelo direito de todos e todas. O Xingu é muito maior do que um prefeito, vale muito mais do que uma mineradora canadense, e imensamente mais interessante de que quaisquer interesses econômicos e políticos que estão planejando mais um golpe. Para nós, Xingu vivo para sempre. Sem veias e veios arrebentados por Belo Sun. Esse é o nosso compromisso e a nossa luta.

Altamira, 30 de novembro de 2017

Veja aqui os procedimentos legais abertos em função dos episódios narrados:
Ministério Público Federal – procedimento de investigação

Polícia Federal – Denúncia de agressão e cárcere privado

Defensoria Púbica do Estado – representação contra a Belo Sun

Representação aos órgãos públicos

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