Antes da COP 25, evento quer colocar a Amazônia no centro do mundo

Encontro vai reunir indígenas, ribeirinhos, jovens ativistas do clima, movimentos sociais e cientistas em uma aliança global pela Amazônia. Evento acontece entre os dias 17 e 19/11 na cidade de Altamira (PA)
Publicado em 08 de novembro de 2019

Indígenas, ribeirinhos, movimentos sociais, jovens ativistas do clima e cientistas vão se reunir na cidade de Altamira (PA) para firmar seu compromisso em defesa da Amazônia e do planeta. Entre os dias 17 e 19 de novembro, o evento “Amazônia centro do mundo” vai promover debates, ações culturais e rodas de conversa sobre a crise climática, grandes obras de infraestrutura, queimadas ilegais e avanço desmatamento.

Altamira, que já foi palco de encontros históricos, como o 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu de 1989, vai receber grandes nomes como o cacique Raoni Metuktire, a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha e o cientista Antonio Nobre. Durante dois dias, os presentes vão dialogar sobre soluções sustentáveis para o futuro da Amazônia e do planeta.

Dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu, Antônia Melo, do Movimento Xingu Vivo, Bel Juruna, liderança da aldeia Mïratu, Raimunda Rodrigues, ribeirinha da Reserva Extrativista Rio Iriri são alguns nomes que compõem o conjunto de participantes do Xingu. O Coletivo de Mulheres do Xingu, Coletivo de Mulheres Negras Maria Maria, o Conselho Ribeirinho, a Comissão Justiça e Paz e o Movimento dos Atingidos por Barragens, dentre outros,  também fazem parte do encontro.  

Ameaças, resistência e futuro

Entre janeiro e setembro de 2019, mais de 31 mil hectares foram desmatados dentro de Terras Indígenas e Unidades de Conservação na bacia do rio Xingu, segundo dados da Rede Xingu +. Garimpo, invasões, flexibilização da legislação,  incêndios descontrolados, avanço da agropecuária e a pressão provocada por grandes obras de infraestrutura explicam essas taxas. São mais de 37 milhões de árvores derrubadas em apenas oito meses, e o ano ainda não acabou.

Vivendo cotidianamente os impactos socioambientais da hidrelétrica Belo Monte e sob a ameaça da instalação do que pode vir a ser a maior mineradora de ouro a céu aberto do país, a canadense Belo Sun, indígenas, ribeirinhos e movimentos sociais querem reforçar o compromisso pela proteção de seu território.

Com Belo Monte, mais de 30 mil pessoas chegaram na região em menos de dois anos, 100 quilômetros do Xingu passaram a viver numa seca artificial com o desvio do rio e Altamira chegou ao posto de cidade mais violenta do país, com a maior taxa de homicídios registrada em todos os municípios brasileiros em 2017. Em 2019, foi palco do segundo maior massacre carcerário da história do Brasil.

O legado de destruição da usina marcou a feição dos moradores do médio Xingu com a tragédia e a injustiça, mas não apagou a capacidade de organização e resistência dos povos do Xingu, principalmente das mulheres – indígenas, ribeirinhas, do campo e da cidade – que historicamente sempre foram as maiores protagonistas das lutas em defesa das florestas e seus povos.

O formato inovador envolve rodas de conversas, apresentações culturais e uma feira de trocas de produtos locais e artesanais para fortalecer a aliança entre povos da floresta e populações urbanas locais, nacionais e internacionais, que com seus modos de vida tradicionais promovem o equilíbrio e a preservação da floresta em pé.

Serviço: Evento Amazônia Centro do Mundo
Quando: 17 a 19 de novembro de 2019
Onde: Universidade Federal do Pará (UFPA) – Campus de Altamira (Campus 1), Altamira (PA)
Programação completa
Local: Campus 1 –  Universidade Federal do Pará (UFPA) – Altamira
Dia 1 (17/11)
17h: Performance de abertura: Involuntários da Pátria, pela atriz transexual Fernanda Silva. Dirigido por Sonia Sobral, o texto baseado na aula-manifesto do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro denuncia a ofensiva final contra os indígenas por aqueles que se acham “donos do Brasil”. Os indígenas e depois os negros são os primeiros “involuntários da pátria”, que foram convertidos em pobres para servirem ao sistema capitalista.
17h30: Show com artistas do Xingu e outras regiões da Amazônia, intercalado com falas de convidados nacionais e internacionais

Dia 2 (18/11)
8h: Mesa de Abertura com representantes dos movimentos sociais da Amazônia, intelectuais da floresta, das universidades e de institutos de pesquisa do Brasil, ativistas nacionais e internacionais
9h30: grupos temáticos para a criação do Manifesto do Centro do Mundo
Temas: 
– Falsas soluções que ameaçam a floresta
– Envolvimento para a Amazônia do Futuro
– Resistência das mulheres na Amazônia
– Juventudes e novos movimentos globais
– Povos da floresta e das águas
– Educação para enfrentar o desenvolvimento predatório
13h: Rios Livres – compartilhamento e discussão dos resultados dos grupos temáticos
15h30: Chuva de ideias para Ação no Centro do Mundo
16h30: Preparação dos materiais para a Ação

Dia 3 (19/11)
8h: Concentração e finalização dos preparativos para a Ação
10h: Ação no Centro do Mundo, com todos os participantes do evento
14h: Concentração e deslocamento para o local do Memorial das Árvores
15h: Plantio de árvores pela Vida e Memória no Centro do Mundo (homenagem)
17h: Slam, com apresentação de artistas do Xingu e leitura do Manifesto do Centro do Mundo
19h (encerramento): Altamira 2042. Concebida por Gabriela Carneiro da Cunha, a peça teatral é o testemunho do rio Xingu sobre a barragem de Belo Monte

Durante toda a programação, haverá a Roça de Alimentação:
Feira dos Povos, com venda de produtos de agricultores e artesãos xinguanos
Oradores: Adriano Barbosa (pescador), Antonia Martins (liderança do movimento social), Antonia Melo (liderança do movimento social), Antonio Nobre (cientista do clima), Bel Juruna (liderança indígena), Cléo Francelino Aquino (representante ribeirinho), Damires Borari (representante indígena), Daniela Silva (representante do movimento social), Dayane Chaves (quilombola), Eduardo Neves (arqueólogo), Dom Erwin Kräutler (bispo emérito do Xingu), Edizângela Gomes (representante do movimento social), Elena Araújo (representante do movimento negro), Eliane Brum (escritora), Erasmo Gonçalves (agricultor), Inaldo Gamela (liderança indígena), Isis Tatiane da Silva (liderança quilombola), Dom João Muniz (bispo do Xingu), José Pereira (agricultor), Jucilene de Souza Carvalho (sacerdotisa de umbanda), Manuela Carneiro da Cunha (antropóloga), Marcio Santilli (ambientalista), Maria Antonia Ribeiro (representante das crianças), Maria Cirene (representante quilombola), Maria Francineide Ferreira (representante ribeirinha), Maria Leuza Munduruku (liderança indígena), Maria Ivonete Coutinho da Silva (professora), Maurício Torres (cientista social), Michael Heckenberger (arqueólogo), Monica Britto (representante do movimento negro), Neymar Ribeiro (representante das crianças), Raimunda Rodrigues (beiradeira), Telma Maria Coelho Barbosa (irmã franciscana), Sara Rodrigues Lima (pescadora).

Organizações: Associação dos Moradores da Reserva Extrativista do Rio Iriri, Associação dos Moradores da Reserva Extrativista do Riozinho do Anfrísio, Coletivo de Mulheres Negras Maria Maria, Coletivo de Mulheres do Xingu, Coletivo de Poetas Marginais, Comissão Justiça e Paz, Conselho Ribeirinho, Conexão África Brasil, Fórum em Defesa de Altamira, Fórum Oriental da Amazônia, Fundação Tocaia, Fundação Viver Produzir e Preservar, Instituto Socioambiental, Movimento dos Atingidos Por Barragens, Movimento de Mulheres do Campo e Cidade, Movimento Negro de Altamira, Movimento Xingu Vivo, Oficina Território Livre, Pastoral da Criança, Pastoral da Juventude, REPAM Brasil, Sintepp Regional, Sintepp Subsede, Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos, Universidade Federal do Pará –Campus Altamira.

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